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 Textos,artigos e suspiros (Raikiri)

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Raikiri
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MensagemAssunto: Textos,artigos e suspiros (Raikiri)   Ter Set 09, 2008 9:47 am

Bem já q existe um espaço onde podemos livremente colocar e mostrar as nossas escrituras, a nossa arte íntima, resolvi usufruir dessa liberdade. Adoro escrever e sendo Editor de uma revista tenho alguns artigos por mim escritos q gostava de partilhar. Deixo aqui então o meu 1ºartigo da Revista "Literalmente" (é uma revista cultural com artigos sobre vários temas). Este artigo é sobre fotografia. Digam o q acham...

Esta é a imagem do artigo:

Spoiler:
 



O sol do meio – dia, em pleno Inverno, ilumina um papagaio perdido no Stephens Lake Park em Columbia, Missouri.


A experiencia estética é uma fruição enriquecedora, possibilitando-nos uma outra forma de perspectivar o ser humano e o mundo, um e outro integrando uma terceira realidade, uma realidade transfigurada, uma realidade heterocósmica no dizer de Etienne Souriau. A arte é sempre uma recriação. A fotografia é uma outra natureza em que o homem e o mundo, o fotógrafo e a natureza se unem, se irmanam, se fundem um no outro. Os aspectos da Natureza manifestam facetas que ressoam no homem e lhe provocam sentimentos especiais de admiração, alegria e júbilo, deixando-o esquecido de si mesmo, alheado em fascinante contemplação.


À primeira vista esta é somente a imagem de um banal papagaio, a sobrevoar os galhos de umas banais árvores, debaixo de um banal espelho de sol. Mas olhemos agora com atenção. Há qualquer coisa que, desde que começamos a observar realmente a fotografia, começa a irradiar um conteúdo implícito que se espalha em torno do sol, do papagaio, dos galhos. Que ocupa o espaço ambiente com alguma coisa que é talvez, sonho, ilusão, alguma coisa que sai e irradia claramente daquela imagem: é o vento que faz baloiçar o papagaio, lá no alto, um vento que sopra frio, frio, e faz estremecer aqueles galhos. O barulho, sim. O silêncio não é mais que o zumbir da brisa, o rodopiar das folhas, o navegar daquele brinquedo. Parece tudo tão distante, tudo tão flutuante. Tão pardo, as nuvens tão pesadas, tão carregadas, tão cerradas, tão presas. É um imenso mar de fumo, é uma corrente de fantasmas, os nossos, os maus. É desconfortável. E o sol está lá ao lado, misturado, enredado, sedado. O vento queima-nos as pálpebras, mais… a alma. É como se ela se fosse com ele. Ali fica aquela carcaça. Vazia. Há um eco. Xilofones. Bum, bum, tum. Eu estaria mesmo ali? Alguma vez? Tão sozinho…Que arrepio… um carrossel que voa sobre as árvores, circula circula. Sobe, desce. Sobre as árvores, junto às árvores, debaixo delas. De onde nunca saí. Porque é que é tudo tão triste? Porquê? Para onde irá esse papagaio? De que foge ele? Foge daquele pesadelo, daquele céu tão pardacento. Mas é um mero objecto! Não tem medos! Ou será que tem? Ele, como eu…tão só… Quero subir, quero. Às árvores. Não vás papagaio. Deixa-me ajudar-te…não me deixes…não me deixes… E é isto um sol! Nem uma faísca. Podia mas não. Não faz nada. Quê dessa luz? Gostava que cintilasses, se fosses capaz é claro. Nem um fósforo. Vieram-me todas as mágoas à cabeça. Eu tento lutar contra elas, tal como o papagaio. Mas não dá. Tal como ele…deixo-me levar pelo vento, por elas. Ainda bem que no meu mundo não existem só sóis destes. Também existem amigos a sério. Amigos que aquecem, mais do que qualquer sol.

Tudo o que descrevi. Tudo o que acrescentei. Se acrescentei todas estas coisas à imagem é porque existiam lá, como objectos de sonho. E fazem todas tão profundamente parte da imagem como tudo o resto. Todas estas realidades que aqui estão implicadas e se manifestam, com vigor, por esta mística envolvente. Mística essa que tem a virtude de proliferar para criar um outro mundo. É um tempo distinto do dito linear. É um tempo orbicular. No tempo linear, o vento é a causa do voar do papagaio; no orbicular, o voar do papagaio dá significado ao soprar do vento, e este dá significado ao voar do papagaio. O significado das imagens é o contexto mágico das relações reversíveis. Aquilo que o artista viu e nos quis mostrar. Ora assim podíamos cair no erro de desvalorizar o trabalho do fotógrafo, já que na fotografia o objecto faz parte da realidade natural. Mas estaríamos errados. Tais aspectos que compõem a fotografia estão imbuídos de uma certa idealização operada pelo criador que viveu e observou a realidade, mas que também seleccionou, omitiu, acrescentou, realçou. O fotógrafo tem uma visão particular das coisas, assiste-lhe o ideal de como elas devem ser transmitidas ao observador e por isso a obra que nos apresenta comporta sempre o seu quê de elogioso ou crítico. Nela não temos, como aparentemente se podia pensar, o mundo banal, cru, simples, isolado. A obra que dei a contemplar só foi possível pela intervenção especial do fotógrafo, qual demiurgo capaz de uma actuação verdadeiramente mágica: a metamorfose da natureza, do real objectivo, numa nova natureza, numa nova realidade que, tendo como referencia a primeira, deixa transparecer a pessoa do criador com a sua identidade própria. O fotógrafo coloca à nossa frente uma realidade interpretada, despertando a nossa sensibilidade e atenção para o carácter inédito de aspectos de que nunca nos tínhamos apercebido. De certa forma ensina-nos a ver. Motiva-nos e investiga a nossa curiosidade para uma redescoberta do mundo. Este já não se reduz à nossa estreita visão nem ao conjunto exíguo de ideias formadas a seu respeito. Sentimo-nos convidados a relativizar o nosso reduto individualista e a adoptar posturas diferentes, abrindo-nos a perspectivas renovadas de leitura de tudo aquilo que nos rodeia. De certa forma a imagem entra em diálogo vivo com o espectador, que a sobrecarrega, então, com as suas significações pessoais. É assim a obra de arte: mantém reservas vivas de comunicabilidade, sendo sempre possível encontrar nela um conteúdo renovado. É isto que faz com que a obra seja verdadeiramente artística e não se esgote no aqui e agora.



Xavier Rosado
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MensagemAssunto: Re: Textos,artigos e suspiros (Raikiri)   Seg Set 29, 2008 6:47 pm

Escrito por ti ?
Muito bom mesmo Wink
Continua ^^
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Raikiri
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MensagemAssunto: Re: Textos,artigos e suspiros (Raikiri)   Ter Set 30, 2008 2:57 pm

Muchas gracias cheers
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MensagemAssunto: Re: Textos,artigos e suspiros (Raikiri)   Ter Set 30, 2008 7:51 pm

Altamente Raikiri. Escreves muito bem.
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Raikiri
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MensagemAssunto: Re: Textos,artigos e suspiros (Raikiri)   Qua Out 08, 2008 7:11 pm

Obrigado MF! Em breve vou postar um sobre jardins japoneses!
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MensagemAssunto: Re: Textos,artigos e suspiros (Raikiri)   Sab Out 11, 2008 8:54 pm

exelente, tens um dote para a escrita
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Raikiri
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MensagemAssunto: Re: Textos,artigos e suspiros (Raikiri)   Dom Out 12, 2008 10:36 am

Bem, como prometido vou colocar aqui o tal artigo q escrevi sobre os jardins japoneses (este vai despertar interesse de certeza Razz )

Spoiler:
 



Nihon teien: uma arte imperial


Existe muita gente espalhada pelo mundo fascinada e intrigada pelas imagens dos jardins japoneses e a sua beleza latente. Como não fujo à regra resolvi explorar esta atracção com mais detalhe e reflectir sobre as características e meandros relacionados com a mensagem universal que esta arte detém e transmite a grande parte das pessoas. Os tradicionais jardins japoneses (nihon teien) constituem um dos pontos representativos da cultura nipónica, sendo reconhecidos pela sua pulcritude e complexidade singulares em qualquer parte do mundo, como referi. Construídos a partir de diversos conceitos estéticos e religiosos, tiveram a sua origem a partir do período auge da aristocracia japonesa. Foi nesta altura, que se passou a considerar este tipo de Jardinagem uma arte propriamente dita. Mas, na verdade, a convivência dos japoneses com o manuseio da natureza possui tanto tempo quanto a própria civilização. Os jardins expressam a relação do homem com a natureza, a qual foi sendo concebida e aprofundada, com o passar do tempo, por meio de conceitos espirituais, estéticos e intelectuais. Para que se entenda o real significado deste tipo de jardim, é necessário que se compreenda a peculiar relação dos japoneses com os elementos da natureza, uma vez que, para eles, além de ser a origem da vida e da terra onde vivem, a natureza também compreende a morada das divindades. Segundo a crença religiosa japonesa, o Xintoísmo, a origem do Japão e do seu povo é definida por meio de divindades que controlam a vida e as forças naturais. Dessa forma, entidades naturais exóticas como cachoeiras, árvores anciãs ou grandes rochas, representações muito frequentes na arte da jardinagem, podem ser consideradas sagradas, por simbolizarem a morada das divindades naturais.
Os jardins ocidentais que estamos acostumados a ver são criados a pensar na vista de fora da casa. É uma decoração para atrair quem passa. Mas nos jardins japoneses não é essa a preocupação. Este vai ser o reduto pessoal do morador, vai ser o refúgio introspectivo. Vai ser o misto da criação do Homem em harmonia com a criação da Natureza propriamente dita. O fruto nimbado, etéreo, da essência do Homem em equilíbrio com o Mundo. Este estilo de jardinagem comporta um sentimento de paz e serenidade para quem mora na casa e para quem visita. Por isso o importante é como é que o jardim vai ficar para quem olha de dentro para fora. Poder apreciar pessoalmente um jardim destes é realmente uma experiência incrivelmente maravilhosa e jubilante, tendo em conta a beleza visual mas sobretudo a sua concepção místico - filosófica. O jardim japonês possui um ar espiritual onde reina a harmonia e, quem entra nesta atmosfera tem a nítida impressão de estar num templo de meditação. A espiritualidade está por toda parte, cada elemento tem um papel fundamental na aura daquele lugar, proporcionando um sentimento perene de paz e tranquilidade mágica. Os jardins que pretendem fornecer o equilíbrio à mente de quem procura estabilidade psíquica, geralmente são formados por contrastes como liso e áspero, horizontal e vertical, isso porque se acredita que estes contrastes estimulam a mente a encontrar o seu próprio caminho até à perfeição. Mas são variadas as simbologias dos elementos – da composição básica de um jardim faz parte uma lanterna de pedra para iluminar a mente de quem percorre o jardim, induzindo à concentração; um lago com carpas coloridas, em que a água representa a vida e em que a carpa é o peixe utilizado por representar a fertilidade e a prosperidade, além de adicionar movimento ao jardim com as suas cores; a cascata com pedras, no centro do jardim, idealizando a continuidade da vida. O fluxo simboliza o nascimento, o crescimento e a morte; o caminho ou a ponte, representam a evolução para um nível superior em termos de engradecimento, amadurecimento e auto – conhecimento, enquanto a flexibilidade do bambu conduz à capacidade de adaptação e mudança; enquanto isso, as árvores e arbustos representam o silêncio e a eternidade – as mais utilizadas são a sakura (flôr de cerejeira japonesa), o ácer e a camélia. A flor de cerejeira tem um significado especial: é conhecida como a flor da felicidade. A sua floração é comemorada nos meses de Março e Abril. É o momento de sair da introspecção do inverno e se abrir para o mundo, deixar florescer o espírito e festejar. Tais princípios, aqui relacionados, ajudam-nos a compreender melhor os aspectos de um jardim japonês. Obviamente não querem dizer uma só coisa, pois podem ter significados correlativos ao mesmo tempo. Um princípio está ligado a outro, o sentido faz-se através do conjunto. Ainda que normalmente relacionados com tranquilos santuários onde as pessoas se podem ir aliviar das tensões da vida diária, os jardins japoneses são, no entanto, concebidos também para outros propósitos. Ainda que alguns convidem à sossegada contemplação, há também espaços destes direccionados à recreação dos visitantes, através da exposição de espécies raras de plantas ou de rochas invulgares. Por outro lado, a visita é também uma descoberta constante, já que nos jardins do tipo Kaiyu-shikio o observador terá que percorrer o jardim para poder apreciá-lo na totalidade. Existe um caminho premeditado que leva o visitante a cada área específica. Aí cada estrutura está colocada especificamente para que as pessoas se apercebam de pormenores particulares. Muitas vezes, quando o observador olhar para cima, irá ser surpreendido por uma ornamentação surpreendente e avassaladora, que tem como intenção iluminar e reavivar o espírito de quem vê. Este tipo de design corresponde ao princípio “Esconder e Revelar”.
O amor xintoísta à natureza faz com que o japonês, nos seus espaços restritos, procure trazer elementos ou signos que a representem para conviver com ele no lar. Há que reconhecer que o homem vive graças à natureza, a tudo quanto ela lhe fornece, pelo que a sua atitude deve ser de profunda gratidão e reverência. Mesmo quando a natureza se revolta e se insurge negativamente, o ser humano é forçado a reconhecer que muito maiores são os benefícios do que os malefícios dela provenientes. A humanidade, apesar de todo o seu avanço tecnológico, não possui poder pleno e deve reconhecer a sua humildade, num espírito de coexistência pacífica. Através da visão xintoísta percebemos que a vida desassociada da natureza é incompatível com o ciclo normal do espírito, o ser humano não deve combatê-la ou transformá-la sem necessidade vital. É comum aos praticantes xintoístas o retiro para ambientes onde possam promover a integração com a natureza, sendo esta uma forma de purificação, elevação espiritual e oportunidade para reflexão e meditação.
Agora cabe a nós reflectir sobre este modo de vida aqui descrito, tirar as ilações apodícticas deste ideário ético – filosófico – religioso, se queremos mesmo mudar o rumo dos acontecimentos. A sociedade moderna está a destruir a uma velocidade assombrosa o mundo natural do qual depende a sobrevivência humana. Sempre me pareceu que nos deveríamos inspirar na visão do mundo das sociedades vernaculares, sobretudo na visão crónica das primeiras eras, quando os homens viviam, em toda a parte, em euritmia com o mundo natural. Então não estará o espírito xintoísta correcto? Se o mundo natural é a fonte original de todos os benefícios e de toda a riqueza, não será o alvo supremo do comportamento numa sociedade ecológica a preservação da ordem da ecosfera? É impreterível agir e rápido. Quem sabe não será a reconciliação com a mãe-natureza a alternativa aos males do nosso tempo! Mas será possível tal reconciliação, mediante um pensamento ecológico orientado para a harmonia com o mundo natural, numa época marcada pela presença avassaladora e a ameaçadora da cultura científico-tecnológica? É a pergunta que se impõe.
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