Isto é uma história de fantasia que escrevi há algum tempo. Não está relacionada com manga/animes. Não está completa, por isso se não querem começar a ler que algo que pára no início, não leiam isto. Se a formatação não estiver bem, peço desculpa, é que copiar do word para o fórum nunca dá bom resultado ^^'
Prólogo: Urien
Estava uma linda tarde de Primavera. O cheiro das flores adoçava a atmosfera que envolvia aquela casa rústica e acolhedora, o som dos passarinhos era a música que ambientava aquele lugar sereno e o sol, por entre as folhas da centenária árvore que lá havia sido plantada ao lado da casa, iluminava aquele espectáculo da natureza com toda a sua vivacidade. Era o “sítio ideal para um fim-de-semana de descanso após uma longa e dura semana de trabalho”, dizia Ann aos seus filhos enquanto para lá rumavam de carro. Todos pareciam estar de acordo excepto Urien. Ele não conseguia perceber como é que a sua mãe e os irmãos gostavam daquele lugar, longe da cidade, da tecnologia, da evolução. Como iria ali poder aceitar os pedidos de amizade que recebia diariamente nas redes sociais da Internet ou fazer missões com os seus amigos nos jogos de aventura online? Como poderia assistir às suas séries preferidas se nem de televisão dispunham naquela casa? Maldita a hora em que os seus pais se lembraram de comprar o casebre naquele fim de mundo. Ao menos a cobertura de rede chegava aquele local e sempre podia ocupar o seu tempo falando pelo telemóvel com os amigos.
– Sabes uma coisa, Urien, devias largar isso um pouco e entrar um bocado em contacto com a natureza, ires para o ar livre e brincar com os teus irmãos – disse a mãe.
– Sim, mãe – disse Urien num tom aborrecido. Olhou pela janela e observou a paisagem durante um bocado. Era repetitiva e monótona, deu-lhe vontade de bocejar. Encostou a cabeça à porta do carro e adormeceu.
Começou então a sonhar com uma sala enorme, só para ele, equipada com tecnologia topo de gama. Sentado num cadeirão à frente do computador, geria os mais importantes websites e fóruns da Internet. Depois carregou num botão que fez um televisor gigante aparecer e, pegando no comando, começou a jogar num simulador de futebol realista. Aquilo sim, era vida. Estava prestes a marcar um golo quando acordou com a voz da sua mãe:
– Chegámos!
Os seus dois irmãos começaram a fazer bagunça no banco de trás mas felizmente para Urien o seu pai tinha ido numa viagem de negócios, pelo que ele tinha podido ir no banco da frente naquele fim-de-semana. Cansado de aturar aquelas duas criancinhas já estava ele. Urien ia fazer dezassete anos no próximo Verão, estava a ficar um adulto e já se sentia velho para brincar com os seus irmãos de dez anos.
Quando a mãe começou a abrandar o carro, os miúdos abriram as portas e saltaram para fora, indo a correr em direcção a casa.
– Cuidado! – gritou a mãe, preocupada mas com um sorriso na cara. Eles não tinham emenda, não paravam quietos por nada no mundo.
Urien podia jurar que os olhos da mãe brilhavam de felicidade sempre que chegavam, certamente havia uma mística em volta daquele lugar para a sua família que ele não conseguia compreender. A mãe abriu o porta-bagagens e disse:
– Leva as coisas dos teus irmãos para o quarto deles, vá.
Urien resmungou mas como sabia que não tinha alternativa senão ceder, pegou nas malas e começou a caminhar até à casa.
– Abram-me a porta! – gritou Urien aos irmãos que corriam que nem doidos pelo jardim. Um deles fez-lhes uma careta e continuaram na brincadeira. Urien sentiu uma ponta de raiva ao ver a sua autoridade rejeitada.
Largou as malas no alpendre soalheiro e abriu a porta. Emanou-se para o exterior um cheiro desagradável a bafio devido à falta de renovação do ar no interior da casa. Urien tossiu ligeiramente e entrou num passo apressado. Passou pela sala de estar, uma sala pequena mas com espaço suficiente para o sofá, um armário e os brinquedos dos seus irmãos mais novos, e pousou as malas à entrada do quarto deles. Seguiu até ao fim do corredor estreito e subiu as escadas em espiral para o seu quarto, rangendo cada degrau à medida que subia. Abriu a janela para arejar o quarto pintado de laranja e olhou lá para fora. Era uma vista muito bonita para o bosque que se estendia até aos montes. Talvez a mãe tivesse razão sobre aproveitar mais a natureza, mas Urien mantinha a sua forma de ser inalterada. Uma aragem fria entrou pelo quarto que fez Urien estremecer e fechar a janela de imediato. Deitou-se na cama baixa a olhar para o tecto branco.
– Quem me dera que já fosse segunda-feira – suspirou para com os seus botões. Enroscou-se na almofada e, a pensar na sua casa na cidade, voltou a adormecer.
O mundo dos sonhos por vezes pode ser enigmático e Urien deu por si num mundo desses. Estava tudo escuro à sua volta, o céu estava escuro, as árvores eram escuras. Parecia um lugar assombrado. Começou a andar por entre as árvores sem vida e a investigar cautelosamente o local. O silêncio absoluto fazia Urien sentir que estava a ser observado. Subitamente, sentiu uma aura negra a alguns metros de distância dele.
– Está aí alguém?
A aura desapareceu e reapareceu por trás de Urien, este virou-se e recuou uns passos. Uma figura escondida por um manto sombrio apareceu diante dele.
– Quem és?
– O meu nome é Muriel – respondeu-lhe tirando o carapuço que escondia o seu rosto, revelando uma série de cicatrizes e uns olhos vermelhos aterradores.
– O que queres de mim? – perguntou Urien assustado. Muriel desfez-se num fumo negro deixando cair o manto e começou a envolver o rapaz.
– Quero que me libertes, que me restaures o poder – sussurrou-lhe a voz de Muriel. O fumo começou a apertar Urien e começou a faltar-lhe o ar. Este lutava para se soltar do fumo, mas sem sucesso. Muriel soltava um riso maléfico enquanto o estrangulava.
De repente, Urien acordou sobressaltado, a suar e a tossir. A dor do sufocamento era real, doía-lhe muito o pescoço. Olhou em toda a sua volta e viu que estava no seu quarto. “Foi só um sonho”, pensou ele enquanto passava a mão pelo pescoço. Ouviu a sua mãe a chamá-lo no piso de baixo para ir jantar mas não se apressou em ir lavar as mãos e a cara. A água estava sempre bastante fria, era mais um dos problemas, não haver aquecimento para a casa toda. Quando chegou à cozinha já estavam todos sentados a comer.
– Passa-se alguma coisa? – perguntou a mãe ao ver a expressão estranha na cara do filho que ainda estava a pensar no sonho.
– Não, não, está tudo bem – respondeu Urien sorrindo.
– Cá para mim arranjou uma namorada - disse Deacon, o seu irmão mais novo.
– Oh, está caladinho - disse-lhe Urien olhando para a mesa. – Peixe outra vez? Odeio peixe.
Enquanto jantava ia respondendo às piadas que os irmãos gostavam de fazer sobre ele, mas até estes notaram que Urien não estava tão resmungão como de costume, assim não tinha tanta piada. Quando os dois traquinas acabaram de comer, foram brincar para a sala. Urien preparava-se para se levantar e ir para o seu quarto quando a mãe lhe disse:
– Não te estás a esquecer de nada?
– Hum, agradecer a Deus por esta refeição?
– Boa tentativa, mas não. Tens de lavar esta loiça toda e arrumar depois.
– Mas mãe…
– Nada de mas! O teu pai não pode vir connosco como sabes e portanto ficas encarregue de fazer as tarefas que ele costumava fazer – disse a mãe acabando com a conversa e saindo da cozinha.
Urien percebeu que não tinha outra hipótese senão fazer o que lhe fora dito, era sempre assim. Pelos vistos ia ser mais um fim-de-semana secante, sem fazer nada do que gostava e ainda a ter que ajudar na lida doméstica. Pelo menos era o que Urien pensava, o que ele não sabia é que estava redondamente enganado.
Travessia
Urien tinha acabado de arrumar tudo quando se ouviu o barulho de um trovão. “Parece que vem aí chuva” pensou. Ann estava no quarto dos seus dois filhos mais novos a ler-lhes uma história enquanto não adormeciam. Urien deu-lhes as boas noites e foi-se deitar. Desejava que o tempo passasse mais depressa mas no entanto não tinha sono nenhum. Pegou no telemóvel cinzento, deitou-se na cama e começou a jogar Snake 3D. Estava determinado a bater o recorde de pontos que havia feito anteriormente quando ouviu um barulho no quintal. Parecia o barulho de um animal a correr. Levantou-se e andando lentamente, dirigiu-se à janela para espreitar. De repente, uma folha levada pelo vento bateu contra o vidro da janela fazendo o rapaz mandar um pequeno salto com o susto.
– Ainda bem que ninguém está aqui para me gozar – murmurou Urien para si próprio.
Deu uma vista de olhos lá para fora mas apenas viu o jardim como sempre foi, sossegado e habitado apenas por erva, flores e a grande árvore. Pensando que a imaginação lhe tinha pregado um truque, voltou a deitar-se. Assim que puxou o lençol de flanela, voltou a ouvir o mesmo barulho. Voltou a olhar pela janela e, não vendo nada, decidiu ir lá fora. Pegou numa lanterna e desceu as escadas silenciosamente. Ao sair de casa sentiu o vento frio a bater-lhe na cara e teve de fazer um esforço extra para fechar a porta de madeira devido à corrente de ar. Começou a andar pelo jardim e ouviu o barulho de folhas a serem pisadas.
– Está aí alguém? – perguntou Urien. Um vulto baixo passou por entre algumas flores e foi na direcção da árvore fazendo um barulho estranho. Urien acendeu a lanterna e começou a caminhar vagarosamente até à árvore, com algum receio.
Sem que Urien pudesse esperar, um animal sai de trás da árvore mostrando os seus dentes afiados e corre na direcção dele. O rapaz assusta-se caindo para trás e deixando cair a lanterna e o telemóvel. Ao chegar ao pé dele, o animal começa a lamber-lhe os sapatos.
– Espera lá, tu és só um cachorro – disse Urien enquanto se acalmava. – Volto a dizer, ainda bem que ninguém viu isto, senão já estava a ser gozado.
Enquanto Urien se levantava, o pequeno cão abocanhou o telemóvel.
– Hei, dá cá isso! – gritou Urien.
O cão assustado começou a fugir com o telemóvel na boca e Urien, pegando na lanterna, começou a correr atrás dele.
– Eu dou-te um biscoito, não fujas! – disse Urien ao cão como se este percebesse a sua língua – Eu preciso disso para falar com os meus contactos!
O cão entrou pelo bosque adentro enquanto Urien o perseguia sem ter noção do quanto se estava a afastar de casa. Contornava árvores esguias e ia tropeçando nuns arbustos, mas não ia deixar que o rafeiro ficasse com o seu telemóvel de última geração porque depois quem é que lhe comprava outro? Após uma perseguição cansativa, o cão largou o telemóvel e fugiu. Urien pegou no aparelho e viu que não tinha ficado danificado. Satisfeito, guardou-o no bolso. Começou a voltar para trás tentando seguir mais ou menos o mesmo caminho. A certa altura todas as árvores e trilhos pareciam iguais e Urien chegou a conclusão que estava perdido. Ligou para a sua mãe a contar o sucedido, esta disse-lhe que ia ligar à guarda-florestal e que não entrasse em pânico. Urien sentou-se numa pedra enquanto esperava que o fossem buscar. Estava escuro e a lanterna estava a ficar sem bateria. Quando Urien pensou que não podia piorar, começou a chover. Foi à procura de um local para se abrigar, decidiu ir na direcção na qual o cão tinha fugido. Urien avistou uma espécie de caverna que estava escondida entre uns arbustos. Teve de se abaixar um pouco para lá entrar e o chão era inclinado. Ficou surpreendido ao ver que do fundo da caverna vinha uma ténue luz. Curioso, decidiu se aproximar mais um pouco mas escorregou na rocha lisa e molhada e começou a deslizar. Tentava subir de volta enquanto ia caindo mas a inclinação do solo não lhe permitia. A luz amarela no fundo da caverna começava a tornar-se cada vez mais intensa à medida que Urien se aproximava dela até que o ofuscou e o envolveu completamente, fazendo-o perder os sentidos.
Quando Urien acordou, ainda sentia a cabeça a andar às voltas. Abriu os olhos e estes demoraram um pouco até se habituarem novamente à claridade normal. Pôs-se de pé e deparou-se com um cenário que já lhe era familiar.
– Não… Não pode ser – pensou.
Em toda a sua volta estavam árvores mortas, negras e sem folhas. O céu tumultuoso estava coberto de nuvens cinzentas escuras que pareciam estar sempre a chocar umas com as outras, soltando um eventual relâmpago resultante dessas disputas celestiais.
– Só posso estar a sonhar outra vez. Mas desta vez parece ser tão real…
Urien estava confuso com o que estava a acontecer à sua volta. Enquanto tentava perceber o que se estava a passar, sentiu a mesma aura negra que tinha sentido no seu sonho, mas muito mais fraca. À medida que sentia a aura mais próxima, Urien viu uma pequena nuvem de fumo negro a voar lentamente na sua direcção. Como por reflexo, o rapaz virou costas e começou a correr sem parar. Penetrou numa espécie de floresta cheia de árvores esquivas, com folhas largas e escuras. Passou por clareiras onde abundavam pedras gastas com inscrições e fileiras de ossos que tinham sido usados para rituais. Enquanto fugia ouvia barulhos agudos e assustadores que faziam lembrar um chiar de um animal selvagem. Passou por um pequeno pântano cheio de criaturas medonhas, não sabia identificar se eram sapos ou morcegos, talvez fossem uma mistura dos dois, e por um terreno cheio de rochas altas em forma de obelisco que soltavam gases cinzentos para a atmosfera. Mesmo quando deixou de sentir a aura, não parou de correr. Com o seu corpo no limite e sem conseguir dar mais um passo, Urien caiu no chão inconsciente.
Edgard
A manhã ia a meio e os raios de sol penetravam por entre as cortinas iluminando o corpo de Urien que descansava sobre um pequeno colchão. Apesar da longa noite de sono, o rapaz tinha acordado com as pernas doridas. Pouco a pouco ia abrindo os olhos e contemplando o espaço que o rodeava. Encontrava-se numa espécie de cabana feita de madeira. Rapidamente se percebia a simplicidade de casa, possuía apenas uma mas grande divisão. Várias tapeçarias ornamentavam as paredes, bem como machados de vários tipos e algumas bandeiras com símbolos, mas o que chamou mais a atenção de Urien foi o enorme brasão pendurado na parede que se encontrava de frente para a entrada. O telhado era composto por várias varas de madeiras dispostas de modo radial e de grandes ramagens para escoarem a água da chuva. Aquela casa era diferente de qualquer outra que Urien já tinha visitado, os tons de castanho despertavam nele uma estranha sensação de calor. Inconfortável por ter passado a noite num colchão tão diminuto, levantou-se e esticou os braços num espreguiçar vagaroso enquanto bocejava. Foi então que se apercebeu que não era só o colchão que lhe era desproporcional. Todos os apetrechos e utensílios que ali se encontravam eram todos demasiado minúsculos para as mãos de um humano normal. Urien estava confuso com tudo o que se estava a passar mas acreditava que havia uma explicação lógica para tudo. Pensava em vários motivos que pudessem explicar a situação mas a verdade é que não sabia de nada.
Foi então que se apercebeu dos barulhos que vinham do exterior da casa. Parecia o alvoroço normal de uma cidade, ouviam-se pessoas a conversar, outras a gritar como se tivessem numa feira a vender os seus produtos e o inconfundível ruído dos transportes motorizados que tanto o incomodava. Dirigiu-se até à saída da cabana e, em vez da normal porta a que estava habituado, encontrou dois grandes retalhos de um tecido que tapavam a visão para o exterior e interior da casa. Afastou-os para o lado enquanto saía da cabana e deparou-se com uma visão fantástica que o fez deixar cair o queixo. O sítio estava povoado de seres parecidos com humanos mas de estatura mais baixa e com formas mais roliças. As suas orelhas eram mais compridas e os narizes ligeiramente mais largos. Usavam roupas velhas que faziam lembrar a Urien roupas medievais. À sua frente encontravam-se mais uma quantas cabanas que seguiam em fila até se cruzarem com uma rua maior. Nessa rua e dispostas na mesma direcção que as cabanas, começavam a surgir pequenas casas de pedras que iam aumentando de proporção até ao fim da comprida rua, onde se encontravam prédios gigantescos e reluzentes pintados de azul com bandeiras de várias cores penduradas. Nesses prédios havia plataformas superiores com grandes varandas e jardins. Por todo o lado, podia se observar uma espécie de naves a fazer ligações desde o solo até a essas plataformas, deixando para trás fumos coloridos que se elevavam para o céu, um pouco como os gases libertados pelos transportes a que Urien estava habituado a observar do seu apartamento na cidade. O que parecia ser um castelo colossal tapava a vista para além do fim da rua.
– Ah, já acordaste! – disse uma daquelas criaturas dirigindo-se a Urien. Era tão baixa que tinha pouco mais que metade da altura do rapaz. No entanto, tinha um ar velho e experiente. Possuía uma longa barba ruiva e olhos castanhos.
– Não te assustes, humano – continuou. – Entra na minha cabana, lá dentro explico-te tudo.
Mas Urien não estava assustado. Ou pelo menos não queria parecer. Rodou sobre os próprios pés e voltou a entrar na cabana. O pequeno mas robusto ser seguiu atrás dele e ofereceu-lhe um lugar para se sentar. Puxando outra cadeira, sentou-se ao lado dele.
– Encontraram-te inconsciente perto das terras de Dayanak, que fazem fronteira com os terrenos negros de Kurluk – começou a criatura. – O que estavas lá a fazer?
– Eu… Eu não sei. Eu só me lembro de uma luz amarela muito forte e de aparecer naquele sítio escuro… – disse Urien. O pequeno ente pôs uma cara séria.
– Como te chamas?
– Urien.
– O meu nome é Edgard, muito prazer – disse num tom cordial. – De que continente vieste?
– Europa – respondeu Urien após uma breve hesitação.
– Tu atravessaste o Bjorn… – murmurou Edgard. – Tenho que te levar à presença de Ansgar imediatamente.
– O que é o Bjorn? Quem é Ansgar? Onde é que eu estou? – perguntou Urien incessantemente.
– Calma, rapaz – Edgard respirou fundo. – Bjorn é um portal que separa dois mundos. O mundo onde tu vivias, o planeta Terra, e o mundo onde eu vivo, o planeta Edin. Ao utilizares esse portal, passaste do teu mundo para o meu.
– Como é possível a existência de tal coisa? – Urien coçou a cabeça – Nem mesmo os cientistas alguma vez descobriram algo semelhante!
– Com o tempo vais perceber que as leis que regem este planeta não são todas iguais as que regem o teu – explicou Edgard.
– O que sabes tu sobre o meu planeta? – perguntou Urien cada vez mais confuso. – Eu certamente não sei nada sobre o teu.
– Algumas coisas sabes – disse Edgard, muito simplesmente.
– Como?
– Tu não foste o primeiro humano a vir parar ao nosso mundo. O portal Bjorn já existe há muitos milhares de anos. Certamente já leste histórias de fantasia em que existem seres extraordinários e dotados de poderes capazes de fazer magia, não leste?
– Sim… – respondeu Urien, não percebendo onde é que Edgard queria chegar.
– O que te leva a crer que essas histórias não tiveram um fundamento verídico? – perguntou Edgard franzindo a testa. – Muitos humanos já aqui estiveram e voltaram ao planeta Terra para contar do nosso mundo. Mas os humanos são seres muito cépticos, duvidam de tudo o que lhes é contado. Mesmo quem aqui esteve e contou aos seus tudo sobre Edin, eles encararam isso como uma apenas história de fantasia.
E era nisso em que Urien se sentia. Num mundo de fantasia. Ainda pensava que a mente lhe estava a pregar algum truque, que estava a ter alucinações. Fosse como fosse, não queria ficar ali.
– Tu disseste que os humanos conseguem voltar à Terra, explica-me como posso voltar – pediu Urien.
– Tens de voltar a restituir o portal – disse Edgard.
– Como posso fazer isso?
– Não é nada fácil, mas acredita que isso também vai ser uma prioridade para todo o meu povo – disse Edgard com um pouco de preocupação. – Antes de mais, deixa-me contar-te um pouco mais sobre o meu mundo.
Urien anuiu com a cabeça e Edgard, sentindo-se um verdadeiro contador de histórias, começou a narrar:
– Há muito tempo atrás, havia uma espécie neste planeta que estava no topo de evolução. Tal como no planeta Terra os humanos descenderam de uma outra espécie, a espécie que dominava o nosso planeta também evoluiu, dando a origem a não uma mas a três outras espécies. Actualmente, essas três espécies são as únicas inteligentes com vida neste globo. Eu pertenço a espécie Dwerg. O nosso estilo de vida é muito semelhante ao que está catalogado como o estilo de vida dos humanos, nós vivemos do comércio e o do que extraímos da terra. Temos direitos e deveres a cumprir. As outras duas espécies diferem nesses aspectos. Os Nadur vivem do que a natureza lhes dá mas não concordam com o nosso método de vida, vivem em sintonia com a natureza nos bosques. Não se alimentam de animais como nós, não destroem terrenos para construir casas. Também são seres misteriosos e não gostam muito de se aproximar de nós. Por fim, os Ozgur são a espécie que mais desgraça traz a este mundo. Destroem tudo o que lhes aparece à frente, vivem nas trevas e na escuridão. Sugam a vida de tudo o que vêm. Actualmente eles encontram-se extintos porque os Dwerg e os Nadur compuseram uma aliança há muitos anos e conseguiram aniquilar as forças dos Ozgur, mas há um ser dessa espécie que é imortal… O seu nome é Muriel.
– Uma aura negra perseguiu-me quando eu estava naquelas terras escuras, acho que era Muriel – disse Urien pensativo.
– Quase de certeza que sim – disse Edgard. – Muriel tem o poder de voltar a fazer os Ozgur erguerem-se todos outra vez, ele é um feiticeiro muito poderoso. A única maneira de suprimir o seu poder era enviando-o para outra dimensão. Foi então que um feiticeiro Nadur desenvolveu uma magia que consistia em criar um portal para outro mundo mas que mantivesse preso Muriel preso na dimensão que separa os dois mundos. O custo de realizar essa magia é ser transportado para o outro mundo ao qual estamos a fazer a ligação. Outro problema é que sempre que alguém usa o portal que faz a ligação dos dois mundos uma segunda vez, a magia que oprime Muriel é quebrada, ou seja, o portal desaparece, e Muriel fica livre. Então ele volta a fazer os Ozgur aparecer e os Dwerg e os Nadur voltam a ter que os combater até que Muriel seja preso outra vez. É um ciclo inquebrável.
– Então foi eu que fiz com que Muriel voltasse a aparecer – disse Urien cabisbaixo. – Mas havia a possibilidade de Muriel aparecer no meu mundo?
– Se fosse alguém deste mundo que usasse o portal para ir para o teu, Muriel iria ser transportado para o teu mundo também.
– Estás a dizer-me que as histórias de demónios e forças do mal na Terra também podem não ter sido inventadas?
– Algumas talvez não – Edgard levantou-se – Pelo que sei, Muriel já passou pelo menos uma vez para o vosso mundo juntamente com um Nadur há muitos anos mas não sei como conseguiram voltar a restituir o portal uma vez que no vosso mundo não é possível usar magias…
Ficaram os dois pensativos durante um bocado, até que Urien perguntou:
– A única maneira de voltar para o meu planeta é ser eu a criar o portal?
– Se o criasses serias transportado para o teu planeta e Muriel ficaria preso noutra dimensão, seria perfeito – disse Edgard. – Também podias usar o portal criado por outro ser mas nesse caso Muriel iria libertar-se da dimensão em que tinha sido preso e aparecer no teu mundo.
Urien percebeu que a sua única hipótese era aprender essa tal magia para conseguir voltar a casa sem que levasse o demónio Muriel consigo para o planeta Terra.
– Eu posso aprender magia? – perguntou.
– Nem todos podem aprender magia – explicou Edgard. – É preciso ter um espírito muito forte e muita vontade de aprender. Mas antes de aprenderes magia ainda tens muito que aprender sobre este mundo. E antes disso ainda tenho que te levar a Ansgar, o nosso rei.
Visita Real
Quando Urien voltou a sair da cabana o seu queixo ia caindo outra vez. Aquela tinha sido, sem dúvida, a visão mais deslumbrante que alguma vez tinha tido.
– Isto é simplesmente extraordinário – comentou Urien maravilhado.
– Muito diferente do teu mundo? – perguntou Edgard.
– Bastante.
– Acredito – disse Edgard. – Ansgar mora naquele edifício, bem no centro da cidade. Diz-se que do último andar pode-se avistar o país inteiro.
– Ainda é um bom bocado até lá – concluiu Urien.
– E a subir – completou Edgard. – Não percamos mais tempo, vamos.
O pequeno dwerg começou a andar e Urien prontamente se despachou em segui-lo. Edgard caminhava depressa mas cada passo de Urien fazia dois do dwerg, de modo que para o rapaz era uma caminhada calma e contemplativa.
– Não pude deixar de notar que à medida que nos aproximamos do centro da cidade que as construções vão parecendo cada vez mais abastadas – reparou Urien.
– As habitações mais dispendiosas estão perto do centro da cidade, mas isso é normal no teu mundo também, certo? – disse Edgard.
– Sim, tens razão – concordou Urien com alguma pena de Edgard por morar na zona mais pobre da cidade. – Então e porque razão estava eu em tua casa? Quem me encontrou?
– Tu foste encontrado pelas sentinelas da cidade de Dayanak e trouxeram-te até aqui à cidade de Merkzi para que a majestade decida sobre o teu futuro – explicou o dwerg. – E ficaste em minha casa porque eu sou um dos guerreiros mais distintos de Edin.
“Edgard, o Grande” pensou Urien fazendo um esforço para conter uma pequena gargalhada que parecia querer sair.
– Pareces surpreendido – comentou Edgard.
– Sim, de facto, estou – disse Urien intrigado. – Se és um dos guerreiros mais distintos porque moras numa pequena cabana nos subúrbios da cidade?
– Porque pertenço à guarda responsável de proteger a cidade dos ataques nocturnos dos temíveis Aslan – disse Edgard orgulhoso do seu posto.
– Aslan? – perguntou Urien curioso – O que são?
– Umas criaturas medonhas que gostam de comer dwergs ao jantar, espero que não tenhas a sorte de conhecer uma tão cedo.
Enquanto Urien e Edgard subiam a rua quase infinita, os dwergs estudavam Urien com um olhar inquisidor e este sentia isso. Alguns faziam um ar muito assustado e outros chegavam-se ao pé dele e tentavam fazer perguntas mas Edgard ia afastando os curiosos.
– Peço desculpa, isto é embaraçoso mas também tens que entender que um humano nestas terras é sinal de presságio – explicou Edgard. – Apesar de Muriel ter sido preso pela última vez há mais de 300 anos, muitos têm conhecimento da sua existência e dos Ozgur através das histórias que os seus avós ou pais lhes contaram e do que lêem em livros. Pouco bastará para que toda a cidade saiba do que está prestes a acontecer.
Urien não tinha noção dos estragos que os Ozgur poderiam causar mas sentia-se mal por saber que a culpa era toda sua. À medida que se aproximavam dos prédios mais luxuosos, maior ia ficando o mar de gente e maior dificuldade tinha Urien em manter Edgard debaixo de olho.
– Não te percas, rapaz – disse-lhe o dwerg, mas Urien já ia distraído olhando para os pequenos veículos aéreos que os sobrevoavam. – São bonitas, não são? É uma das maravilhas da evolução que vamos ter o prazer de desfrutar agora mesmo.
– A sério? – empolgou-se Urien. – Vamos voar numa?
Edgard puxou Urien pela multidão para dentro de uma pequena loja. Lá dentro estava um cheiro nauseabundo que não parecia incomodar os dwergs. A loja era pequena e mal iluminada, nas paredes estavam pendurados alguns posters de dwergs femininos em roupa mínima que incomodaram Urien. Atrás do balcão estava um dwerg ligeiramente mais alto que Edgard, no entanto, não tinha muito bom aspecto.
– São dois bilhetes para o centro de Merkzi, se faz favor – disse Edgard virando-se para trás e olhando para Urien – Aliás, são 3 bilhetes para o centro, não creio que o meu amigo aqui caiba num lugar normal.
O empregado de balcão observava Urien admirado enquanto tirava os bilhetes. Depois de Edgard ter pago, seguiram por umas escadas no fundo da loja.
– Cuidado para não bater com a cabeça – avisou o empregado, dirigindo-se claramente a Urien.
Após 5 minutos a subir escadas, Urien perguntava-se se alguma vez iam ter fim. Estava prestes a barafustar algo quando uma luz apareceu vinda de cima. Chegaram ao topo do prédio e ao que parecia ser um terminal das naves voadoras. “Próxima partida para o centro dentro de breves instantes” disse uma voz vinda de uma espécie de altifalantes.
– É o nosso, vamos – disse Edgard.
O pequeno dwerg entrou sem dificuldades na nave enquanto que Urien teve de se baixar ligeiramente. Sentaram-se os dois e puseram-se a vontade tanto quanto possível. Alguns dwergs pareciam incomodados com a presença do humano na nave mas Urien tentava ser simpático e esboçava-lhes um pequeno sorriso. Querendo evitar os outros dwergs, Urien começou a falar com Edgard:
– O que é que faz mover estas máquinas?
– Gemas – respondeu Edgard.
– Gemas de ovos? – perguntou Urien com uma ponta de admiração. Um dwerg com aspecto de ser uma criança riu-se fazendo Urien sentir que tinha dito uma barbaridade.
– Não, pedras preciosas – explicou Edgard pacientemente. – São pedras raras que se formam na terra e que extraímos para lhes dar muitas utilidades. Estas pedras têm poderes mágicos e são capazes de ter influência nos seres vivos. São fontes naturais de vários tipos de energia, podem ser usadas para fazer magias ou mesmo mover estas naves como já te apercebeste, entre outras coisas.
– Senhores passageiros, chegámos ao nosso destino – disse o condutor da nave.
Urien e Edgard saíram da nave noutro terminal. Tiveram que voltar a descer outra escadaria para infelicidade de Urien, que já não queria ver escadas à frente. Quando saíram do edifício, estavam praticamente à frente do grande castelo que ficava no centro de Merkzi. Urien olhou para cima, não conseguia avistar o topo. Era certamente a maior e mais bela construção que alguma vez havia visto.
– Temos que subir até lá acima, é onde o rei te espera – disse Edgard.
– Mas são quase dois quilómetros de escadas! – queixou-se Urien enquanto fingia que desmaiava.
– Na verdade são três – disse Edgard. – Mas há elevadores.
Urien pôs-se de pé e soltou um pequeno “Uff”. Enquanto acabavam de subir a rua e se aproximavam do portão gigante que dava entrada para o castelo, Urien pensava que tipo de pessoa seria o rei.
Ansgar
Sem dúvida que o portão estava à escala do opulento arranha-céus. Imediatamente acima do portão com incontáveis metros de altura, três pedras grandiosas e perfeitamente esféricas estavam dispostas em triângulo. As três pedras reflectiam fortemente a luz do sol nas suas cores, vermelho, laranja e violeta.
– O que são? – perguntou Urien protegendo os olhos do forte brilho.
– Aquilo é o nosso maior tesouro, Urien – disse Edgard olhando para cima. – Gemas daquele tamanho e com aquela forma pura são muito raras e cheias de energia. Elas exercem uma grande influência no nosso povo, nas nossas almas.
– Como assim? – O rapaz olhou para o dwerg intrigado.
– Por exemplo, estás a ver a pedra vermelha?
– Sim, o que tem?
– Enquanto esta pedra aqui se encontra, todos os que nascerem nesta cidade nunca poderão sentir ódio no seu coração, pelo contrário, fará com que sintam um enorme amor pela vida – explicou Edgard.
– E as outras?
– Bem, a pedra laranja garante a felicidade e a violeta a submissão de todos os que nascerem na cidade, à semelhança com a pedra vermelha.
– Submissão?
– Sim – disse Edgard, suspirando. – Obediência ao nosso rei é uma ordem suprema, é impossível infringir esta lei.
– Quer dizer que mesmo que não quisessem obedecer a uma ordem do rei teriam que o fazer? – questionou Urien revoltado.
– Sim, mesmo que fosse contra a nossa vontade, a pedra não nos deixa agir de outra forma senão de acordo com a vontade do rei.
– Mas isso é horrível!
– Nós confiamos no nosso rei – disse Edgard. – Ele é apurado por nós.
– Então ele é eleito pelo povo, não ascende ao cargo por sucessão?
– Nunca, é sempre escolhido. É a única maneira de sabermos que o nosso líder é de confiança antes de lhe entregarmos o controlo total sobre a população.
– Percebo – disse Urien. – Mas conta-me mais sobre a origem destas pedras.
– Claro, vamos só entrando primeiro, já te conto tudo – disse o dwerg batendo no portão.
Ambos esperaram em silêncio enquanto a entrada para a grande torre se abria. Ao entrar, Urien deu de caras com um enorme salão circular, bem iluminado e cheio de decorações brilhantes. Um dwerg de aspecto robusto com uma armadura fina e castanha deu-lhes as boas vindas e escoltou-os até ao centro do salão, onde se encontrava um elevador para os outros pisos. Quando chegaram, o guarda deu a Urien uma pedra transparente e abriu a porta do elevador. Edgard empurrou Urien para dentro do elevador e o guarda fechou as portas.
– O que é suposto eu fazer com isto? – perguntou Urien estudando a pedra.
– Metes aqui nesta ranhura – disse Edgard apontando com o dedo para um pequeno orifício.
Urien colocou a pedra no lugar indicado e o elevador iluminou-se para espanto do rapaz. De seguida, Edgard proferiu uma palavra e o elevador começou a movimentar-se. À medida que começavam a subir, o dwerg ia relaxando os ombros. Por fim, disse:
– Ainda vai demorar um bocado até chegarmos ao centésimo quinquagésimo andar, por isso vou-te contar a origem das pedras que viste lá fora.
Edgard fez uma breve pausa e, aclarando a voz, começou a contar:
– Estas pedras são escavadas há séculos por mineiros. Eram principalmente utilizadas para a magia pelos nossos antepassados, os outros usos que damos actualmente às pedras foram descobertos há poucos anos com a evolução da tecnologia. Nesses tempos mais remotos, quando o comércio não estava desenvolvido e ainda não existia tecnologia, as condições de vida eram mais precárias mas ainda assim o povo era feliz, unido e leal ao seu rei. Quando aquelas três magníficas pedras foram encontradas, um sábio poderoso quis conservar o clima que se sentia na cidade de Merkzi e conseguiu perpetuar os sentimentos dos dwergs naquelas esferas através de uma magia que, até aos dias de hoje, ainda não foi quebrada. Desde esse dia que as esferas, de certa forma, tomam conta dos habitantes da cidade e ajudam a manter a harmonia.
– E essas pedras que levas aí no braço, têm algo a ver com as que vimos lá fora em cima do portão? – perguntou Urien apontando para uma protecção de couro com três pedras irregulares incrustadas, uma vermelha, uma laranja e uma violeta.
– Sim e não. Eu não nasci nesta cidade, logo o Triângulo da Vida não tem influência directa em mim. Para ser aceite na cidade e obedecer às suas leis, tenho de transportar estas três pequenas pedras que foram encantadas com a mesma magia que encantou as esferas do Triângulo. Assim, estas pequenas pedras que transporto exercem uma igual influência em mim que o Triângulo exerce sobre qualquer habitante nascido em Merkzi.
-- Fim (acabou-se a paciência para escrever mais porque a história já estava toda definida) --
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